terça-feira, 17 de outubro de 2023

O pensamento não europeu

 

O Pensamento Não Europeu


Se tivéssemos que escolher 2 imagens para falar sobre as diferenças entre o pensamento europeu e o pensamento não europeu, talvez as que melhor simbolizariam essas formas de pensar seriam, respectivamente, a estrada reta e a encruzilhada.

A estrada reta

O pensamento europeu foi sistematizado sob a forma de método pelo filósofo, matemático e físico francês René Descartes, em 1637, com a publicação do livro Discurso do método. A expressão que sintetiza dito método é "Penso, logo existo", que em linhas gerais, significa que para alcançarmos a verdade devemos pensar racionalmente, por isso a necessidade de seguir um método, negando todo tipo de conhecimento criado ou originário da vivência empírica, da subjetividade ou mesmo das intuições. Como o pensamento cartesiano implica seguir etapas pré-determinadas, ele não admite  considerar variantes, desvios ou possibilidades outras que possam surgir a partir de mudanças não previstas. É um pouco como se ele não considerasse que o universo é um organismo vivo, em constante mudança e movimento, e o que hoje serve como solução para um dado problema, amanhã pode estar obsoleto.

A encruzilhada

A encruzilhada, por sua vez, apresenta mais uma linha que, como o próprio nome diz, cruza a estrada em linha reta para enriquecê-la, potencializá-la, pois oferece respostas ou soluções para além do dualismo cartesiano, que só consegue ver a realidade a partir de pares opostos, a partir dos extremos da linha: certo x errado, bom x mau, verdade x mentira. Ao contrário, a encruzilhada sabe que entre esses dois extremos, existem várias nuances a serem consideradas e que todo caminho implica a possibilidade de cair numa outra encruzilhada, e assim sucessivamente. Por isso, mais do que por um método racional, precisamos também nos guiar pelas nossas experiências de vida, pelo nosso coração, pelas nossas intuições, pois elas representam um canal para a nossa ancestralidade, onde morte e vida se entrecruzam permanentemente.

A complexidade do pensamento não europeu

Nesse sentido, as formas de pensar das culturas indígenas, africanas, ciganas, ribeirinhas, entre outras, acabam sendo muito mais complexas e sofisticadas, pois, para além das oposições simplistas, elas sabem pensar a realidade e as pessoas sob diferentes aspectos. Assim, a morte e a vida, a natureza e a cultura, estão em permanente cruzamento, e muitas vezes o que consideramos morto está mais vivo do que uma pessoa que, apesar de encarnada, perdeu toda sua potência de vida, como acontece nos casos de depressão profunda ou mesmo quando vivemos por viver, sem entusiamo pelo que fazemos, pela vida que levamos. Por outro lado, quando colocamos uma oferenda para alguma divindade numa encruzilhada, aquele que chamamos morto ganha vida nesse espaço sagrado.

O racionalismo e a ideia de humanidade

Pois bem, especialmente a partir de Descartes, para o pensamento euro-norte-americano o que vai fazer dos homens superiores a outros seres vivos é o uso da razão, mais especificamente, o uso do método racional, de modo que todos aqueles que se seguiam por outras formas de pensar para construir conhecimento não farão parte da dita "humanidade". Como somente os que sabem usar a razão são aqueles que pertecem às raças consideradas "superiores", ou seja, à raça branca (diga-se europeia, não esqueça que Descartes era europeu), todos os demais que descendem de outras raças, como nós brasileiros ou latino-americanos, não poderemos fazer parte do grupo seleto da "humanidade". No máximo, podemos dizer que seremos considerados pelos países hegemônicos como pertencentes a uma humanidade de segunda classe. Assim, todo o conhecimento que produzimos nunca será considerado legítimo, a menos que seja avaliado por esse grupo seleto e aprovado por ele. Talvez esse seja um dos maiores prejuízos causados pelo racionalismo, pois se não fazemos parte da "humanidade", no mesmo nível do que qualquer outro cidadão euro-norte-americano, significa dizer que "podemos" ser tratados como não humanos, como vidas descartáveis, algo fácil de ser constado todos os dias nos variados telejornais.


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 Apesar de terem de passar a viver entre os povos de origem europeia, a verdade é que os povos indígenas e os povos africanos nunca precisaram do pensamento racional-cartesiano para pensar ou viver. Sua lógica vai além da razão, ainda que saibam muito bem guiar-se por ela, pois, do contrário, não teriam sobrevivido aos séculos de massacre de suas culturas e de si mesmos. Podemos definir a diferença entre o pensamento europeu e o pensamento não europeu a partir de 2 espaços simbólicos: a linha reta e a encruzilhada. Enquanto o pensamento eurocêntrico busca na linha reta do método racional, a segurança e a garantia das certezas, o pensamento não europeu, indígena, africano, cigano, etc. parte da consciência de que a vida é muito complexa para nos garantir a segurança e o controle tão desejados. Ao contrário, as culturas não europeias entendem que tudo no mundo está sempre em movimento, que o que nos define é a mudança, de modo que nem sempre a resposta correta de hoje será a resposta mais correta ou adequada para o dia de amanhã. Nesse sentido, enquanto o espaço simbólico da estrada reta é o que melhor define o pensamento eurocêntrico, podemos dizer que a encruzilhada é o espaço que corresponde ao modo de pensar latino-americano. Visite nosso blog: https://descolonizaamericalatina.blogspot.com/ Vídeo no canal sobre raça: https://youtube.com/shorts/9OKGUMORy3U?feature=share Links e Bibliografia Textos: "Fogo no mato": a ciência encantada das macumbas, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. "Pedagogia das encruzilhadas", Luiz Rufino. LUIZ ANTÔNIO SIMAS: BATO TAMBOR, LOGO EXISTO, UOL: https://revistatrip.uol.com.br/trip/luiz-antonio-simas-bato-tambor-logo-existo "Por uma epistemologia das encruzilhadas", Luiz Antônio Simas, Bolg Saúde Mental: https://www.psicologiahailtonyagiu.psc.br/materias/e-books/1544-por-uma-epistemologia-das-encruzilhadas Vídeos: "Encruzilhadas", Luiz Antônio Simas: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=rAjlvbU7tFc "Pedagogia das encruzilhadas", Luiz Rufino, Canal pedagogiadasencruzilhadas: https://www.youtube.com/watch?v=gatikyv_2mI Sobre o canal: Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo


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