domingo, 14 de abril de 2024

23 de abril: Salve Jorge! Salve Ogum!


 

     Amado por muitos, visto com resistência por alguns, São Jorge é uma figura ambivalente, complexa, que remete às inúmeras acomodações que toda cultura com passado colonial foi obrigada a criar, sem que isso absolutamente represente ausência de conflito ou qualquer tipo de processo harmonioso. Pelo contrário, se por um lado, todas as assimilações culturais foram impostas pelo colonizador, por outro, essas mesmas assimilações nunca deixaram de acontecer sem resistências, sem lutas, e em geral, foram negociadas nas brechas, nas rachaduras deixadas por um sistema profundamente violento e excludente. 

São Jorge e a herança racista da colonização

     Na versão de santo católico, São Jorge é profundamente amado, porém, quando a fama de santo macumbeiro se espalha, ele passa a ser olhado por muitos com desconfiança. Afinal, quem é ele? Jorge ou Ogum? Sempre que se acendem velas, se elevam orações, sempre que ouvimos os clarins da alvorada no dia 23 de abril, qual deles está sendo adorado, o santo católico ou o santo macumbeiro?  

     E aí, a palavra "macumba" merece uma reflexão: também ela fruto da monocultura colonizadora, essa palavra apaga toda a diversidade das religiões afro-brasileiras (candomblé, umbanda, catimbó, etc.), colocando-as todas num mesmo caldeirão, o caldeirão do tinhoso. Porque sim, o colonizador tratou de demonizar todas as formas de espiritualidade não europeias e não brancas, relacionando-as com expressões religiosas de raças inferiores e primitivas, as quais deveriam ser submetidas à superioridade de seu projeto civilizador.

     Não esqueçamos, no entanto, que ditas "raças inferiores" possuem cor, e se inicialmente elas foram da cor da pele indígena, mais adiante as vantagens econômicas do tráfico de escravos, vai dar lugar ao predomínio da cor negra nas lavouras e nas casas grandes dos senhores de engenho. Enfim, "macumba" é coisa de gente NÃO branca.

Embranquecimento: uma opção política

     Pois bem, infelizmente os processos de independência das ex-colônias latino-americanas não acompanharam um processo paralelo de erradicação da estrutura colonialista. Pelo contrário, essa estrutura se mantém até hoje. As elites que lideraram esses movimentos de independência eram em sua maioria descendentes de europeus - lembremos que a independência do Brasil foi liderada pelo próprio colonizador -, e se identificavam com a cultura de suas respectivas metrópoles. Isso resultou num contexto a princípio paradoxal: o estabelecimento de países independentes, cujas sociedades permaneceram com bases coloniais. Talvez isso explique todo o processo de eugenia ao qual elas foram submetidas durante o século XIX.

     A opção pela Europa como modelo civilizatório a ser seguido e copiado pelas ex-colônias levou as elites a incentivarem um processo de embranquecimento que ia do apoio ao discurso eugênico sobre raça às políticas de imigração europeia, com o objetivo de tornar a população cada vez mais branca. Evidentemente, nesse contexto, todas as manifestações culturais de povos de origem NÃO branca foram reprimidas e até criminalizadas, como foi o caso das rodas de samba, da capoeira e das religiões afro-brasileiras, todas elas pejorativamente chamadas de "macumba".

Sincretismo: São Jorge não é Ogum. Ogum não é São Jorge.

     No sincretismo, assim como é comum a todo processo de tradução, o texto traduzido nunca é igual ao texto de origem, especialmente quando se tratam de linguagens, cujos sistemas são tão diferentes, e eu diria até opostos. Se remetemos, por exemplo, à forma pela qual os pensamentos das culturas  europeias e africanas operam, vamos perceber que, enquanto a primeira pensa a partir de oposições, a segunda entende que entre dois termos opostos existem muitas nuances que devem ser consideradas e que as oposições em geral são falsas, pois a depender dos contextos, do momento que cada pessoa vive ou do caminho que cada um veio realizar nesse planeta, o que para um é "bom", para outro pode ser "ruim". Assim, se para a cultura europeia, toda diferença deve ser erradicada, pois o mundo europeu sempre será o modelo do bom, do belo e do verdadeiro, para muitos povos africanos, como os bantos, por exemplo, a incorporação de deuses e crenças do outro é vista como acréscimo de força vital.

    Talvez tenha sido a característica acima citada que permitiu que os povos africanos escravizados incorporassem o santo católico ao seu panteão, traduzindo São Jorge como Ogum, ao mesmo tempo que negociavam a sobrevivência dos cultos aos seus ancestrais, ou seja, sua própria sobrevivência nessas novas terras. 

     Por outro lado, como dissemos, numa boa tradução,  texto de origem e texto traduzido nunca serão exatamente iguais, ou seja, São Jorge NÃO é Ogum e Ogum NÃO é São Jorge. Na verdade, essa tradução terá como resultado um terceiro elemento, o qual transcenderá ambos os textos sem, contudo, anulá-los. Nesse sentido, o santo católico nunca deixará de ser quem é, "um guerreiro valente, que cuida da gente que sofre demais...", e Ogum, por sua vez, se manterá vivo, e ambas as energias se complementarão nos vãos deixados pela diferença. (BENJAMIN, 2008).


Referências

BENJAMIN, Walter. A tarefa-renúncia do tradutor. In: BRANCO, Lucia Castello (Org.). A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Tradução de Susana Kampff Lages. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008, p. 66-81.

SIMAS, Luiz Antonio & RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.

LUBKE, Mariane Yuri S. et alii. "A independência do Brasil a partir da visão eurocêntrica: o legado do colonialismo interno". In: Revista Videre, v. 13, n. 26, jan-abr. 2021.


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domingo, 7 de abril de 2024

A Colonialidade de A a Z

 

         Comecemos por diferenciar colonialismo de colonialidade. Em linhas gerais, podemos dizer que a colonialidade e a modernidade nascem durante o processo de colonização da América (Latina), já que esse evento histórico marca o nascimento de um padrão específico de poder, o padrão mundial de poder capitalista (Quijano, 2014). Esse, por sua vez, se funda "na imposição de uma classificação racial/étnica da população", a partir da qual o mundo passa a ser dividido entre grupos supostamente superiores a outros que serão considerados inferiores. Em resumo, podemos dizer que as marcas materiais dessa diferença serão a cor da pele e os traços fenótipos que a acompanham, sendo superiores o homem euro-branco-judaico-cristão em oposição aos demais grupos NÃO-euro-branco-judaico-cristãos. 

          Por outro lado, essa divisão foi essencial para estabelecer o lugar das populações na divisão social do trabalho, de modo que serão os Não-brancos os destinados a ocupar posições subalternas, os mesmos que permitirão o acúmulo de capital necessário- lembremos da escravidão- para que o mundo europeu pudesse engendrar e consolidar o sistema capitalista sob o qual vivemos até hoje. Como podemos perceber, o que garante o funcionamento das engrenagens do sistema capitalista é a existência e a manutenção do racismo, e com ele, a diferença entre ricos e pobres, países centrais e periféricos, grupos hegemônicos e subalternizados. Heis aqui o conceito de "colonialidade", um fenômeno bem mais antigo do que o colonialismo, mas que não existiria sem que este tivesse assentado as bases para a sua existência. 


Rodas de samba e colonialidade do poder

          colonialidade do poder é um padrão de poder euro-branco-colonial-capitalista, que desde a conquista das Américas passou a estabelecer relações de poder verticais, baseadas em formas modernas de exploração e dominação, cuja violência vai encontrar na suposta existência de raças biologicamente superiores e inferiores sua principal justificativa. 

Ao contrário, povos não euro-brancos-cristãos encontram no sentido de coletividade sua maior força e poder. Na roda de samba, por exemplo, o poder é praticado de forma horizontal (SILVA, 2022, p. 08), onde corpos negros, territórios de saberes diaspóricos, trocam seus conhecimentos, suas vivências, alegrias e sofrimentos através do samba. Nessa roda não existem dominadores e dominados, mas pessoas que constroem uma comunidade de resistência, quilombos onde exercem sua humanidade de forma plena. 



                             Samba: colonialidade do saber   

      A colonialidade do saber se refere ao apagamento das produções de conhecimentos de povos não europeus e não brancos. Junto com a colonialidade do poder, a colonialidade do saber estabelece uma forma de produção de conhecimento e um tipo de saber que passa a ser visto como o único e universal, ou seja, os conhecimentos produzidos a partir de matrizes euro-norte-americanas-brancas.

 A partir da colonialidade do saber, saberes negros, indígenas, ciganos, ribeirinhos são subalternizados, deslegitimados como saberes menores, inferiores, e são então relegados ao espaço do mito, do folclore, da imaginação, do não-real. É o que acontece com o samba, por exemplo, um ritmo que marca a forte presença africana na cultura brasileira. 

Com batuques provenientes do Congo e de Angola, o samba e seus diferentes ritmos é uma forma de construção diaspórica de conhecimentos, na qual fragmentos de saberes despedaçados pela escravidão se cruzam na reinvenção de novos conhecimentos. Assim, se por um lado o samba canta a dor de mortes e perdas, por outro, ele também canta o poder regenerador da ancestralidade e todos os saberes que a acompanham: o poder curativo das ervas, a gastronomia africana, os ritos e festas trazidos de África e reinventados nas Américas.


Poder SER: a colonialidade do ser

       Ao lado da colonialidade do poder e do saber, a colonialidade do ser estabelece quem deve fazer parte do seleto grupo chamado humanidade: em resumo, todos aqueles que participam do padrão de relações de poder moderno-colonial como dominadores, ou seja, os herdeiros dos privilégios de gênero, raça e classe euro-branco-judaico-cristãos. 

Esse padrão de poder é, portanto, essencialmente excludente, em especial para os que vivem em países de passado colonial e escravocrata, cuja população não branca, não herdeira dos privilégios da casa grande, negros, indígenas, ribeirinhos, ciganos e outros, terão seus corpos racializados e subalternizados. Corpos que serão relegados ao espaço-tempo de um passado bárbaro, primitivo e inferior, ao espaço-tempo do NÃO-SER, do NÃO-HUMANO. 

Assim, esses corpos subalternizados terão de reinventar sua própria humanidade, o que acontece muitas vezes através de algumas manifestações culturais. É o caso do carnaval, por exemplo, já que ele permite a inversão das relações de poder moderno-coloniais, onde o dominador se transforma em objeto de crítica e sátira, enquanto o dominado assume a posição de sujeito dessa mesma crítica. No carnaval, os corpos negros se exibem, os passistas exibem sua ginga ao som dos batuques, saberes que revelam sua ancestralidade. Nesse momento, eles SÃO, porque se reconhecem enquanto COMUNIDADE, enquanto NAÇÃO, uma IDENTIDADE no tempo com espaço nesse mundo.


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Vídeo no canal sobre raça: https://youtube.com/shorts/9OKGUMORy3U?feature=share Links e Bibliografia
Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, Aníbal Quijano: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf

O que é patriarcado? Regiane Folter, Politize!: https://www.politize.com.br/patriarcado/

Samba e decolonialidade, Ariana Mara da Silva: https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/resources/anais/16/anpuh-sc-eeh2022/1662405589_ARQUIVO_9d764d9b2988aec0e4d2f5516fb1dd37.pdf

Vídeos
Aníbal Quijano en el III Congreso Latinoamericano y Caribeño de Ciencias Sociales, FLACSO, Equador: https://www.youtube.com/watch?v=OxL5KwZGvdY




23 de abril: Salve Jorge! Salve Ogum!

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