Onde você esconde o seu racismo?
Repercussões de um monólogo preto sobre uma mulher branca
Estrelado pela atriz Ana Carbatti, quem também assina o texto, o monólogo "Ninguém sabe meu nome" trata das angústias de uma mãe preta sobre como criar o filho também preto numa sociedade racista. Entre essas angústias estão: ensinar o filho a se defender do racismo, introduzindo-o a uma sociedade cruel, e assim, criar uma pessoa cheia de medos e defesas diante dessa mesma sociedade ou esperar que ele traga essas questões para casa, deixando que ele sofra o racismo na própria pele, o que significa sofrer desde violência psicológica até violência física?
Ana Carbatti leva adiante essas e outras questões com maestria, numa atuação intensa, inteira e verdadeira. Por outro lado, ela joga com a plateia entre apresentar um monólogo leve, tranquilo, como entretenimento e a impossibilidade de seguir dessa forma quando se trata de um tema de feridas tão profundas como o racismo. Um tema que causa desconforto a negros e brancos.
A partir de um determinado momento, a atriz se volta para a plateia e passa a bola para gente: "Alguma dúvida? Vocês querem falar alguma coisa?" E aí aquele frio na barriga, falar o quê diante de tudo o que foi dito? Pois é... só que não tinha só brancos na plateia como eu não, pelo contrário, tinha muitas pessoas negras, que tinham/tem muito o que falar. Sim, elas são silenciadas todos os dias, difícil competir com a fúria falante do branco, que para tudo tem opinião, certezas e respostas (olha eu aqui nesse blog... tentando falar/escrever o que eu não consegui falar naquele momento...), então é claro que essas pessoas começaram a falar, e entre elas um pai preto com a esposa ao lado também preta, ansiosos para dar testemunho de como foi a criação dos filhos, do caminho que eles encontraram para evitar que seus filhos sofressem com o racismo. Mas aí veio aquela frase por parte desse pai: "... e os brancos também não tem culpa do racismo..."
Os brancos não tem culpa do racismo. Será????
Então, pessoal, não gosto da palavra "culpa", mas não tenho nenhuma dúvida de que sim, nós, brancos, temos de nos responsabilizar pelo racismo de cada dia. Primeiramente, entender que ele é estrutural, e isso significa dizer que ele perpassa todas as nossas instituições: família, educação, justiça, saúde, enfim, o racismo é parte de uma engrenagem maior que se chama sistema capitalista, sem ele o capitalismo mal teria nascido, quanto mais se desenvolvido. Lembra da escravidão?
A escravidão
Pois e´... ela foi essencial para que houvesse o acúmulo de capital (dinheiro, moeda de troca) necessário para que esse sistema se consolidasse, para que a Europa desse início à revolução industrial. Foram séculos de trabalho escravo, sem o dono de engenho gastar um tustão com o trabalho alheio, vocês imaginam o que seja isso? E não vale dizer que esses senhores sustentavam seus escravos, pelo amor de Deus! Eles viviam em condições degradantes, trabalhando até morrer!
Mas o que que o RACISMO tem a ver com isso?
Tem TUDO a ver! O racismo, a ideia de raça foi fundamental para justificar diante do povo, especialmente do povo religioso, a violência da escravidão, o domínio de uns povos sobre outros. Só a ideia de que o mundo está dividido entre raças superiores e raças inferiores seria possível para justificar a escravidão, o comércio de pessoas que eram tratadas como meras mercadorias, pois essa ideia vai também ser responsável por estabelecer a divisão internacional do trabalho, onde uns nasceram para mandar e outros para obedecer. E é claro que entre os primeiros estão os europeus, mais especificamente, o homem branco-cristão, estando entre os demais o homem não branco, não europeu e não cristão.
A naturalização da ideia de raça
E foi assim que se divulgou, se naturalizou a ideia de que os não brancos -pretos, indígenas, ciganos- são inferiores e, portanto, merecem ser dominados, já que eles não tem condições de viverem sem a tutela do homem branco-europeu.
Estava então estabelecido o racismo, em linhas gerais, a ideia de que os não brancos devem ocupar lugares subalternos, devem ser dominados, devem ganhar menos e servir ao homem branco.
O pacto da branquitude
Os brancos, brancas e branques imediatamente trataram, pois, de preservar essas ideias, e para isso criaram o que a escritora Cida Bento chama de "pacto da branquitude", ou seja, de uma forma bastante internalizada, eu dirira até muitas vezes inconsciente, o povo branco começou a proteger os seus privilégios, como o que acontece, por exemplo, numa entrevista de emprego, na qual por mais que se negue o racismo, dependendo do cargo, quem vai levar é o branquinho, lourinho, e de preferência de olhos clarinhos...
E foi assim também que nós, brancos e não brancos, começamos a achar "normal" ver só brancos ocupando espaços de poder, de mando, ou de ver pretos morando nas favelas e usando só os elevadores de serviço.
A importância do letramento racial
Só que hoje, com o trabalho árduo e incansável dos movimentos negros não tem mais como negar que sim, SOMOS RACISTAS, que vivemos num PAÍS RACISTA, e que temos de nos responsabilizar pelo racismo de cada dia. Devemos pensar que, se por um lado, quem realmente sofre com o preconceito racial são as pessoas de pele negra, por outro, a cada manifestação de racismo, nós brancos nos barbarizamos, assumimos a postura monstruosa do senhor de engenho, do colonizador, mesmo que seja através de um simples olhar de soslaio para um negro que passa do nosso lado, ou quando imediatamente agarramos a nossa bolsa quando isso acontece.
Afinal, onde você esconde o seu RACISMO?
Se você ainda não sabe onde você esconde o seu racismo, então, presta atenção, leia escritores pretos, ouça essas pessoas, se dedique ao que os movimentos negros cunharam de "letramento racial" e vamos juntos descolonizar as nossas mentes e nossos corações para construir um mundo mais igualitário e verdadeiramente humano.
Assista também ao vídeo "Onde você esconde o seu racismo?"
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SE INSCREVA NO CANAL: @ritadescolonizando #descolonização #americalatina #colonialismo #brasil #decolonization #racismo #raça #race Esse vídeo traz as impressões de uma mulher branca sobre um monólogo preto intitulado "Ninguém sabe meu nome". Estrelado e escrito pela atriz Ana Carbatti, esse texto fala sobre as angústias, dúvidas e medos de uma mãe preta na criação de seu filho também preto numa sociedade racista: o racismo na escola, os olhares no shopping ou nas lojas de departamento, as abordagens da polícia, e acima de tudo, a morte que espreita a todo momento. E então eu, branca, na plateia, filha de mãe brasileira-branca e pai português-branco, herdeira de todos os privilégios que a minha pele me dá, sem eu precisar fazer muito esforço para tê-los (os esforços foram de outro tipo, não foram por causa da cor da minha pele, importante dizer): onde eu entro nesse monólogo? Qual é meu papel de mulher branca numa sociedade racista? Como falar de racismo SEM SER RACISTA? Difícil... mas aí vai esse vídeo mesmo assim... com todos os riscos que a tarefa me impôs.
