domingo, 14 de abril de 2024

23 de abril: Salve Jorge! Salve Ogum!


 

     Amado por muitos, visto com resistência por alguns, São Jorge é uma figura ambivalente, complexa, que remete às inúmeras acomodações que toda cultura com passado colonial foi obrigada a criar, sem que isso absolutamente represente ausência de conflito ou qualquer tipo de processo harmonioso. Pelo contrário, se por um lado, todas as assimilações culturais foram impostas pelo colonizador, por outro, essas mesmas assimilações nunca deixaram de acontecer sem resistências, sem lutas, e em geral, foram negociadas nas brechas, nas rachaduras deixadas por um sistema profundamente violento e excludente. 

São Jorge e a herança racista da colonização

     Na versão de santo católico, São Jorge é profundamente amado, porém, quando a fama de santo macumbeiro se espalha, ele passa a ser olhado por muitos com desconfiança. Afinal, quem é ele? Jorge ou Ogum? Sempre que se acendem velas, se elevam orações, sempre que ouvimos os clarins da alvorada no dia 23 de abril, qual deles está sendo adorado, o santo católico ou o santo macumbeiro?  

     E aí, a palavra "macumba" merece uma reflexão: também ela fruto da monocultura colonizadora, essa palavra apaga toda a diversidade das religiões afro-brasileiras (candomblé, umbanda, catimbó, etc.), colocando-as todas num mesmo caldeirão, o caldeirão do tinhoso. Porque sim, o colonizador tratou de demonizar todas as formas de espiritualidade não europeias e não brancas, relacionando-as com expressões religiosas de raças inferiores e primitivas, as quais deveriam ser submetidas à superioridade de seu projeto civilizador.

     Não esqueçamos, no entanto, que ditas "raças inferiores" possuem cor, e se inicialmente elas foram da cor da pele indígena, mais adiante as vantagens econômicas do tráfico de escravos, vai dar lugar ao predomínio da cor negra nas lavouras e nas casas grandes dos senhores de engenho. Enfim, "macumba" é coisa de gente NÃO branca.

Embranquecimento: uma opção política

     Pois bem, infelizmente os processos de independência das ex-colônias latino-americanas não acompanharam um processo paralelo de erradicação da estrutura colonialista. Pelo contrário, essa estrutura se mantém até hoje. As elites que lideraram esses movimentos de independência eram em sua maioria descendentes de europeus - lembremos que a independência do Brasil foi liderada pelo próprio colonizador -, e se identificavam com a cultura de suas respectivas metrópoles. Isso resultou num contexto a princípio paradoxal: o estabelecimento de países independentes, cujas sociedades permaneceram com bases coloniais. Talvez isso explique todo o processo de eugenia ao qual elas foram submetidas durante o século XIX.

     A opção pela Europa como modelo civilizatório a ser seguido e copiado pelas ex-colônias levou as elites a incentivarem um processo de embranquecimento que ia do apoio ao discurso eugênico sobre raça às políticas de imigração europeia, com o objetivo de tornar a população cada vez mais branca. Evidentemente, nesse contexto, todas as manifestações culturais de povos de origem NÃO branca foram reprimidas e até criminalizadas, como foi o caso das rodas de samba, da capoeira e das religiões afro-brasileiras, todas elas pejorativamente chamadas de "macumba".

Sincretismo: São Jorge não é Ogum. Ogum não é São Jorge.

     No sincretismo, assim como é comum a todo processo de tradução, o texto traduzido nunca é igual ao texto de origem, especialmente quando se tratam de linguagens, cujos sistemas são tão diferentes, e eu diria até opostos. Se remetemos, por exemplo, à forma pela qual os pensamentos das culturas  europeias e africanas operam, vamos perceber que, enquanto a primeira pensa a partir de oposições, a segunda entende que entre dois termos opostos existem muitas nuances que devem ser consideradas e que as oposições em geral são falsas, pois a depender dos contextos, do momento que cada pessoa vive ou do caminho que cada um veio realizar nesse planeta, o que para um é "bom", para outro pode ser "ruim". Assim, se para a cultura europeia, toda diferença deve ser erradicada, pois o mundo europeu sempre será o modelo do bom, do belo e do verdadeiro, para muitos povos africanos, como os bantos, por exemplo, a incorporação de deuses e crenças do outro é vista como acréscimo de força vital.

    Talvez tenha sido a característica acima citada que permitiu que os povos africanos escravizados incorporassem o santo católico ao seu panteão, traduzindo São Jorge como Ogum, ao mesmo tempo que negociavam a sobrevivência dos cultos aos seus ancestrais, ou seja, sua própria sobrevivência nessas novas terras. 

     Por outro lado, como dissemos, numa boa tradução,  texto de origem e texto traduzido nunca serão exatamente iguais, ou seja, São Jorge NÃO é Ogum e Ogum NÃO é São Jorge. Na verdade, essa tradução terá como resultado um terceiro elemento, o qual transcenderá ambos os textos sem, contudo, anulá-los. Nesse sentido, o santo católico nunca deixará de ser quem é, "um guerreiro valente, que cuida da gente que sofre demais...", e Ogum, por sua vez, se manterá vivo, e ambas as energias se complementarão nos vãos deixados pela diferença. (BENJAMIN, 2008).


Referências

BENJAMIN, Walter. A tarefa-renúncia do tradutor. In: BRANCO, Lucia Castello (Org.). A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Tradução de Susana Kampff Lages. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008, p. 66-81.

SIMAS, Luiz Antonio & RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.

LUBKE, Mariane Yuri S. et alii. "A independência do Brasil a partir da visão eurocêntrica: o legado do colonialismo interno". In: Revista Videre, v. 13, n. 26, jan-abr. 2021.


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domingo, 7 de abril de 2024

A Colonialidade de A a Z

 

         Comecemos por diferenciar colonialismo de colonialidade. Em linhas gerais, podemos dizer que a colonialidade e a modernidade nascem durante o processo de colonização da América (Latina), já que esse evento histórico marca o nascimento de um padrão específico de poder, o padrão mundial de poder capitalista (Quijano, 2014). Esse, por sua vez, se funda "na imposição de uma classificação racial/étnica da população", a partir da qual o mundo passa a ser dividido entre grupos supostamente superiores a outros que serão considerados inferiores. Em resumo, podemos dizer que as marcas materiais dessa diferença serão a cor da pele e os traços fenótipos que a acompanham, sendo superiores o homem euro-branco-judaico-cristão em oposição aos demais grupos NÃO-euro-branco-judaico-cristãos. 

          Por outro lado, essa divisão foi essencial para estabelecer o lugar das populações na divisão social do trabalho, de modo que serão os Não-brancos os destinados a ocupar posições subalternas, os mesmos que permitirão o acúmulo de capital necessário- lembremos da escravidão- para que o mundo europeu pudesse engendrar e consolidar o sistema capitalista sob o qual vivemos até hoje. Como podemos perceber, o que garante o funcionamento das engrenagens do sistema capitalista é a existência e a manutenção do racismo, e com ele, a diferença entre ricos e pobres, países centrais e periféricos, grupos hegemônicos e subalternizados. Heis aqui o conceito de "colonialidade", um fenômeno bem mais antigo do que o colonialismo, mas que não existiria sem que este tivesse assentado as bases para a sua existência. 


Rodas de samba e colonialidade do poder

          colonialidade do poder é um padrão de poder euro-branco-colonial-capitalista, que desde a conquista das Américas passou a estabelecer relações de poder verticais, baseadas em formas modernas de exploração e dominação, cuja violência vai encontrar na suposta existência de raças biologicamente superiores e inferiores sua principal justificativa. 

Ao contrário, povos não euro-brancos-cristãos encontram no sentido de coletividade sua maior força e poder. Na roda de samba, por exemplo, o poder é praticado de forma horizontal (SILVA, 2022, p. 08), onde corpos negros, territórios de saberes diaspóricos, trocam seus conhecimentos, suas vivências, alegrias e sofrimentos através do samba. Nessa roda não existem dominadores e dominados, mas pessoas que constroem uma comunidade de resistência, quilombos onde exercem sua humanidade de forma plena. 



                             Samba: colonialidade do saber   

      A colonialidade do saber se refere ao apagamento das produções de conhecimentos de povos não europeus e não brancos. Junto com a colonialidade do poder, a colonialidade do saber estabelece uma forma de produção de conhecimento e um tipo de saber que passa a ser visto como o único e universal, ou seja, os conhecimentos produzidos a partir de matrizes euro-norte-americanas-brancas.

 A partir da colonialidade do saber, saberes negros, indígenas, ciganos, ribeirinhos são subalternizados, deslegitimados como saberes menores, inferiores, e são então relegados ao espaço do mito, do folclore, da imaginação, do não-real. É o que acontece com o samba, por exemplo, um ritmo que marca a forte presença africana na cultura brasileira. 

Com batuques provenientes do Congo e de Angola, o samba e seus diferentes ritmos é uma forma de construção diaspórica de conhecimentos, na qual fragmentos de saberes despedaçados pela escravidão se cruzam na reinvenção de novos conhecimentos. Assim, se por um lado o samba canta a dor de mortes e perdas, por outro, ele também canta o poder regenerador da ancestralidade e todos os saberes que a acompanham: o poder curativo das ervas, a gastronomia africana, os ritos e festas trazidos de África e reinventados nas Américas.


Poder SER: a colonialidade do ser

       Ao lado da colonialidade do poder e do saber, a colonialidade do ser estabelece quem deve fazer parte do seleto grupo chamado humanidade: em resumo, todos aqueles que participam do padrão de relações de poder moderno-colonial como dominadores, ou seja, os herdeiros dos privilégios de gênero, raça e classe euro-branco-judaico-cristãos. 

Esse padrão de poder é, portanto, essencialmente excludente, em especial para os que vivem em países de passado colonial e escravocrata, cuja população não branca, não herdeira dos privilégios da casa grande, negros, indígenas, ribeirinhos, ciganos e outros, terão seus corpos racializados e subalternizados. Corpos que serão relegados ao espaço-tempo de um passado bárbaro, primitivo e inferior, ao espaço-tempo do NÃO-SER, do NÃO-HUMANO. 

Assim, esses corpos subalternizados terão de reinventar sua própria humanidade, o que acontece muitas vezes através de algumas manifestações culturais. É o caso do carnaval, por exemplo, já que ele permite a inversão das relações de poder moderno-coloniais, onde o dominador se transforma em objeto de crítica e sátira, enquanto o dominado assume a posição de sujeito dessa mesma crítica. No carnaval, os corpos negros se exibem, os passistas exibem sua ginga ao som dos batuques, saberes que revelam sua ancestralidade. Nesse momento, eles SÃO, porque se reconhecem enquanto COMUNIDADE, enquanto NAÇÃO, uma IDENTIDADE no tempo com espaço nesse mundo.


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Vídeo no canal sobre raça: https://youtube.com/shorts/9OKGUMORy3U?feature=share Links e Bibliografia
Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, Aníbal Quijano: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf

O que é patriarcado? Regiane Folter, Politize!: https://www.politize.com.br/patriarcado/

Samba e decolonialidade, Ariana Mara da Silva: https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/resources/anais/16/anpuh-sc-eeh2022/1662405589_ARQUIVO_9d764d9b2988aec0e4d2f5516fb1dd37.pdf

Vídeos
Aníbal Quijano en el III Congreso Latinoamericano y Caribeño de Ciencias Sociales, FLACSO, Equador: https://www.youtube.com/watch?v=OxL5KwZGvdY




sábado, 3 de fevereiro de 2024

29 de janeiro: Dia da Visibilidade Trans

 


Em 29 de janeiro de 2004, um grupo de ativistas transexuais, transgêneros e travestis se uniram pela primeira vez em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, em defesa de seus direitos, sob o lema "Travesti e Respeito", e desde então, nessa data, comemora-se o Dia da Visibilidade Trans. Mas o que é ser trans?

Cis/Cisgênero x Trans/Transgênero

De maneira bastante didádica, podemos dizer que transgeneridade é o contrário de cisgeneridade, ou seja, enquanto as pessoas cis se identificam com o sexo de nascimento, as pessoas trans se identificam com o gênero oposto ao sexo de nascimento. Assim, um homem trans é aquele que nasceu com uma genitália feminina (vagina), mas que se identifica com o gênero masculino; já a mulher trans é aquela que nasceu com a genitália masculina (pênis), mas que se vê desde a infância como uma menina. Em geral, as pessoas trans sentem como se tivessem nascido no corpo "errado" e isso lhes causa um profundo incômodo e desconforto que as leva a assumir o comportamento do gênero oposto, seja na escolha das roupas ou nas brincadeiras preferidas para sentirem-se elas mesmas. 

Travesti x Transgênero

A palavra travesti se refere às pessoas do sexo masculino que se identificam com o gênero feminino, mas que, ao contrário das mulheres transgêneras, não sentem necessidade de se assemelhar fisicamente a esse gênero (feminino) por meio de tratamentos hormonais ou cirúrgicos, e ainda que o façam, não veem problema em manter o órgão sexual de origem, trata-se de uma identidade não binária. Para ser mais específica, enquanto as mulheres trans são mulheres como outras quaisquer, as travestis, apesar de se identificarem com o universo feminino, sua identidade não é a de mulher, mas a de travesti (Keila Simpon, Diretora da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) seriam como pertencentes a um terceiro gênero.

Vale destacar que o termo Trans/Transgênero é um termo guarda-chuva para fazer referência a todas as identidades trans: transexuais, travestis, pessoas não binárias, etc.

Visibilidade Trans

Dar visibilidade às pessoas trans é fundamental para que entendamos suas existências como legítimas, como cidadãs que possuem direitos, tais como direito à educação, à saúde, à moradia, a emprego, a todos os direitos previstos em lei para qualquer um de nós, pessoas não trans. Procurar conhecer essas identidades, como vivem, os inúmeros preconceitos e violências que sofrem, é previnir julgamentos injustos e lutar por um mundo mais igualitário e solidário.

Referências:

MOIRA, Amara et alii. Vidas Trans: a luta de transgêneros brasileiros em busca de seu espaço social, Astral Cultural, 2022.

SOUSA, Cristiane Prudenciano de. Entenda por que celebramos a visibilidade trans em 29 de janeiro. Politize!, 2024. https://www.politize.com.br/visibilidade-trans/

Transcendemos Explicahttps://transcendemos.com.br/transcendemosexplica/trans/.


Assista também ao vídeo: O que é transgênero?

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SE INSCREVA NO CANAL: ​⁠ @ritadescolonizando #colonialismo #descolonização #americalatina #sulglobal #decolonialidade #transgeneros #cisgender #travesti #identidadesdegênero #transfobia #lgbtqiap Olá, pessoal! O primeiro vídeo da série dedicada à visibilidade trans. Então, aqui também, como acontece com a homofobia, a transfobia mata! A cisgeneridade continua insistindo em não ver que existe uma infinidade de identidades de gênero, invisibilizando-as, criando inexistências e transformando a vida dessas pessoas numa impossibilidade de SER e de EXISTIR! Que tal a gente conhecer um pouco mais sobre elas, ouvi-las, lê-las, entender o que sentem, o que sofrem e porque sofrem. Com certeza, a gente vai perceber que são pessoas como qualquer um de nós, lutando por sobreviver num mundo que decidiu estabelecer o que é “normal” e o que é “anormal”, quando o que importa é a gente poder ser o que a gente é em qualquer lugar, tempo ou circustância. Quando o que importa mesmo é a gente ser feliz! 🩷 Bora lá descolonizar a mente e comemorar a VIDA, SER e DEIXAR SER! 🩷 Referências textuais e audiovisuais: "O que é transfobia?", Politize!: https://www.politize.com.br/equidade/o-que-e-transfobia/ "Liberdade: a coragem de ser quem você é", direção de Barbara Araujo: https://www.youtube.com/watch?v=_QlnZvI6e7w&t=2s

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Homofobia, machismo e sociedade colonial

Segundo o arqueólogo Luiz Mott, as relações homoafetivas já existiam nas Terras Pindorâmicas antes da chegada do conquistador, como já era de se esperar, já que elas são tão naturais quanto as práticas heterossexuais. No entanto, ao contrário da Europa, aqui não existia uma normatividade que estabelecesse quais relações sexuais e afetivas deveriam ser consideradas "normais" ou "naturais", serão os colonizadores europeus que irão trazer essas noções de normalidade para as Américas.

O pecado da sodomia

Na Idade Média, a Igreja Católica era a maior responsável por estabelecer essa normatividade, especialmente através da Inquisição, que condenava à fogueira todos os suspeitos de praticar a sodomia. 

Segundo a interpretação da Igreja, a condenação da cidade de Sodoma e Gomorra teve como principal motivo as práticas de relações homossexuais, especialmente entre homens, práticas essas que passaram a ser conhecidas como sodomia. A condenação tinha como principal motivo o fato de essas relações não serem reprodutivas, sendo o coito anal considerado um desperdício de sêmem, de vida.

Homofobia

A sodomia passa então a ser relacionada com pecado, erro, culpa, desvio, pederastia, amoralidade, e o conquistador europeu chega às Américas propagando o horror e a aversão a esses tipos de relações, estabelecendo, segundo os parâmetros da cultura ocidental, o que hoje conhecemos como homofobia.

Machismo

A configuração demográfica da colônia, na qual o número de brancos era muito menor do que o de indígenas, e mais adiante, do que o de africanos escravizados, vai fazer com que o controle social, incluindo aí as normas de gênero e sexualidade, ou seja, o controle sobre os corpos não brancos, tenha de ser muito mais repressor e violento, gerando uma hipervirilidade, que vai resultar, para Mott, num machismo que nessas terras será sempre muito mais virulento do que foi ou é na Europa.

Se você tem curiosidade sobre o assunto, assista também ao vídeo abaixo, e não esqueça de deixar o seu comentário.



Links e Bibliografia Textos: Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, Aníbal Quijano: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, Aníbal Quijano: https://www.ufrgs.br/estudoslatinoamericanos/wp-content/uploads/2018/06/ELA9%C2%BA-Texto3.pdf Etnohistoria de la homosexualidad en América Latina, Luiz Mott: https://pdfslide.tips/documents/luiz-mott-etnohistoria-de-la-homosexualidad-en-america-latina.html?page=4 Bahia: inquisição e sociedade, Luiz Mott: https://static.scielo.org/scielobooks/yn/pdf/mott-9788523208905.pdf ¿Cómo el patriarcado y el capitalismo refuerzan en forma conjunta la opresión de las mujeres?, DEnise Comanne, CADTM: https://www.cadtm.org/Como-el-patriarcado-y-el LGBTfobia que chegou nas caravelas se enraizou com a colonização, Vinícius Lisboa, Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-05/lgbtfobia-que-chegou-nas-caravelas-se-enraizou-com-colonizacao

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Onde você esconde o seu racismo?

 

Onde você esconde o seu racismo?

Repercussões de um monólogo preto sobre uma mulher branca




     Estrelado pela atriz Ana Carbatti, quem também assina o texto, o monólogo "Ninguém sabe meu nome" trata das angústias de uma mãe preta sobre como criar o filho também preto numa sociedade racista. Entre essas angústias estão: ensinar o filho a se defender do racismo, introduzindo-o a uma sociedade cruel, e assim, criar uma pessoa cheia de medos e defesas diante dessa mesma sociedade ou esperar que ele traga essas questões para casa, deixando que ele sofra o racismo na própria pele, o que significa sofrer desde violência psicológica até violência física?

    Ana Carbatti leva adiante essas e outras questões com maestria, numa atuação intensa, inteira e verdadeira. Por outro lado, ela joga com a plateia entre apresentar um monólogo leve, tranquilo, como entretenimento e a impossibilidade de seguir dessa forma quando se trata de um tema de feridas tão profundas como o racismo. Um tema que causa desconforto a negros e brancos. 

    A partir de um determinado momento, a atriz se volta para a plateia e passa a bola para gente: "Alguma dúvida? Vocês querem falar alguma coisa?" E aí aquele frio na barriga, falar o quê diante de tudo o que foi dito? Pois é... só que não tinha só brancos na plateia como eu não, pelo contrário, tinha muitas pessoas negras, que tinham/tem muito o que falar. Sim, elas são silenciadas todos os dias, difícil competir com a fúria falante do branco, que para tudo tem opinião, certezas e respostas (olha eu aqui nesse blog... tentando falar/escrever o que eu não consegui falar naquele momento...), então é claro que essas pessoas começaram a falar, e entre elas um pai preto com a esposa ao lado também preta, ansiosos para dar testemunho de como foi a criação dos filhos, do caminho que eles encontraram para evitar que seus filhos sofressem com o racismo. Mas aí veio aquela frase por parte desse pai: "... e os brancos também não tem culpa do racismo..."

Os brancos não tem culpa do racismo. Será????

   Então, pessoal, não gosto da palavra "culpa", mas não tenho nenhuma dúvida de que sim, nós, brancos, temos de nos responsabilizar pelo racismo de cada dia. Primeiramente, entender que ele é estrutural, e isso significa dizer que ele perpassa todas as nossas instituições: família, educação, justiça, saúde, enfim, o racismo é parte de uma engrenagem maior que se chama sistema capitalista, sem ele o capitalismo mal teria nascido, quanto mais se desenvolvido. Lembra da escravidão? 

A escravidão

    Pois e´... ela foi essencial para que houvesse o acúmulo de capital (dinheiro, moeda de troca) necessário para que esse sistema se consolidasse, para que a Europa desse início à revolução industrial. Foram séculos de trabalho escravo, sem o dono de engenho gastar um tustão com o trabalho alheio, vocês imaginam o que seja isso? E não vale dizer que esses senhores sustentavam seus escravos, pelo amor de Deus! Eles viviam em condições degradantes, trabalhando até morrer! 

    Mas o que que o RACISMO tem a ver com isso? 

    Tem TUDO a ver! O racismo, a ideia de raça foi fundamental para justificar diante do povo, especialmente do povo religioso, a violência da escravidão, o domínio de uns povos sobre outros. Só a ideia de que o mundo está dividido entre raças superiores e raças inferiores seria possível para justificar a escravidão, o comércio de pessoas que eram tratadas como meras mercadorias, pois essa ideia vai também ser responsável por estabelecer a divisão internacional do trabalho, onde uns nasceram para mandar e outros para obedecer. E é claro que entre os primeiros estão os europeus, mais especificamente, o homem branco-cristão, estando entre os demais o homem não branco, não europeu e não cristão.

A naturalização da ideia de raça

    E foi assim que se divulgou, se naturalizou a ideia de que os não brancos -pretos, indígenas, ciganos- são inferiores e, portanto, merecem ser dominados, já que eles não tem condições de viverem sem a tutela do homem branco-europeu. 

    Estava então estabelecido o racismo, em linhas gerais, a ideia de que os não brancos devem ocupar lugares subalternos, devem ser dominados, devem ganhar menos e servir ao homem branco. 

   O pacto da branquitude

    Os brancos, brancas e branques imediatamente trataram, pois, de preservar essas ideias, e para isso criaram o que a escritora Cida Bento chama de "pacto da branquitude", ou seja, de uma forma bastante internalizada, eu dirira até muitas vezes inconsciente, o povo branco começou a proteger os seus privilégios, como o que acontece, por exemplo, numa entrevista de emprego, na qual por mais que se negue o racismo, dependendo do cargo, quem vai levar é o branquinho, lourinho, e de preferência de olhos clarinhos... 

    E foi assim também que nós, brancos e não brancos, começamos a achar "normal" ver só brancos ocupando espaços de poder, de mando, ou de ver pretos morando nas favelas e usando só os elevadores de serviço. 

A importância do letramento racial

    Só que hoje, com o trabalho árduo e incansável dos movimentos negros não tem mais como negar que sim, SOMOS RACISTAS, que vivemos num PAÍS RACISTA, e que temos de nos responsabilizar pelo racismo de cada dia. Devemos pensar que, se por um lado, quem realmente sofre com o preconceito racial são as pessoas de pele negra, por outro, a cada manifestação de racismo, nós brancos nos barbarizamos, assumimos a postura monstruosa do senhor de engenho, do colonizador, mesmo que seja através de um simples olhar de soslaio para um negro que passa do nosso lado, ou quando imediatamente agarramos a nossa bolsa quando isso acontece.

   Afinal, onde você esconde o seu RACISMO?

   Se você ainda não sabe onde você esconde o seu racismo, então, presta atenção, leia escritores pretos, ouça essas pessoas, se dedique ao que os movimentos negros cunharam de "letramento racial" e vamos juntos descolonizar as nossas mentes e nossos corações para construir um mundo mais igualitário e verdadeiramente humano.

Assista também ao vídeo "Onde você esconde o seu racismo?"


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SE INSCREVA NO CANAL: ​⁠ @ritadescolonizando #descolonização #americalatina #colonialismo #brasil #decolonization #racismo #raça #race Esse vídeo traz as impressões de uma mulher branca sobre um monólogo preto intitulado "Ninguém sabe meu nome". Estrelado e escrito pela atriz Ana Carbatti, esse texto fala sobre as angústias, dúvidas e medos de uma mãe preta na criação de seu filho também preto numa sociedade racista: o racismo na escola, os olhares no shopping ou nas lojas de departamento, as abordagens da polícia, e acima de tudo, a morte que espreita a todo momento. E então eu, branca, na plateia, filha de mãe brasileira-branca e pai português-branco, herdeira de todos os privilégios que a minha pele me dá, sem eu precisar fazer muito esforço para tê-los (os esforços foram de outro tipo, não foram por causa da cor da minha pele, importante dizer): onde eu entro nesse monólogo? Qual é meu papel de mulher branca numa sociedade racista? Como falar de racismo SEM SER RACISTA? Difícil... mas aí vai esse vídeo mesmo assim... com todos os riscos que a tarefa me impôs.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

O pensamento não europeu

 

O Pensamento Não Europeu


Se tivéssemos que escolher 2 imagens para falar sobre as diferenças entre o pensamento europeu e o pensamento não europeu, talvez as que melhor simbolizariam essas formas de pensar seriam, respectivamente, a estrada reta e a encruzilhada.

A estrada reta

O pensamento europeu foi sistematizado sob a forma de método pelo filósofo, matemático e físico francês René Descartes, em 1637, com a publicação do livro Discurso do método. A expressão que sintetiza dito método é "Penso, logo existo", que em linhas gerais, significa que para alcançarmos a verdade devemos pensar racionalmente, por isso a necessidade de seguir um método, negando todo tipo de conhecimento criado ou originário da vivência empírica, da subjetividade ou mesmo das intuições. Como o pensamento cartesiano implica seguir etapas pré-determinadas, ele não admite  considerar variantes, desvios ou possibilidades outras que possam surgir a partir de mudanças não previstas. É um pouco como se ele não considerasse que o universo é um organismo vivo, em constante mudança e movimento, e o que hoje serve como solução para um dado problema, amanhã pode estar obsoleto.

A encruzilhada

A encruzilhada, por sua vez, apresenta mais uma linha que, como o próprio nome diz, cruza a estrada em linha reta para enriquecê-la, potencializá-la, pois oferece respostas ou soluções para além do dualismo cartesiano, que só consegue ver a realidade a partir de pares opostos, a partir dos extremos da linha: certo x errado, bom x mau, verdade x mentira. Ao contrário, a encruzilhada sabe que entre esses dois extremos, existem várias nuances a serem consideradas e que todo caminho implica a possibilidade de cair numa outra encruzilhada, e assim sucessivamente. Por isso, mais do que por um método racional, precisamos também nos guiar pelas nossas experiências de vida, pelo nosso coração, pelas nossas intuições, pois elas representam um canal para a nossa ancestralidade, onde morte e vida se entrecruzam permanentemente.

A complexidade do pensamento não europeu

Nesse sentido, as formas de pensar das culturas indígenas, africanas, ciganas, ribeirinhas, entre outras, acabam sendo muito mais complexas e sofisticadas, pois, para além das oposições simplistas, elas sabem pensar a realidade e as pessoas sob diferentes aspectos. Assim, a morte e a vida, a natureza e a cultura, estão em permanente cruzamento, e muitas vezes o que consideramos morto está mais vivo do que uma pessoa que, apesar de encarnada, perdeu toda sua potência de vida, como acontece nos casos de depressão profunda ou mesmo quando vivemos por viver, sem entusiamo pelo que fazemos, pela vida que levamos. Por outro lado, quando colocamos uma oferenda para alguma divindade numa encruzilhada, aquele que chamamos morto ganha vida nesse espaço sagrado.

O racionalismo e a ideia de humanidade

Pois bem, especialmente a partir de Descartes, para o pensamento euro-norte-americano o que vai fazer dos homens superiores a outros seres vivos é o uso da razão, mais especificamente, o uso do método racional, de modo que todos aqueles que se seguiam por outras formas de pensar para construir conhecimento não farão parte da dita "humanidade". Como somente os que sabem usar a razão são aqueles que pertecem às raças consideradas "superiores", ou seja, à raça branca (diga-se europeia, não esqueça que Descartes era europeu), todos os demais que descendem de outras raças, como nós brasileiros ou latino-americanos, não poderemos fazer parte do grupo seleto da "humanidade". No máximo, podemos dizer que seremos considerados pelos países hegemônicos como pertencentes a uma humanidade de segunda classe. Assim, todo o conhecimento que produzimos nunca será considerado legítimo, a menos que seja avaliado por esse grupo seleto e aprovado por ele. Talvez esse seja um dos maiores prejuízos causados pelo racionalismo, pois se não fazemos parte da "humanidade", no mesmo nível do que qualquer outro cidadão euro-norte-americano, significa dizer que "podemos" ser tratados como não humanos, como vidas descartáveis, algo fácil de ser constado todos os dias nos variados telejornais.


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 Apesar de terem de passar a viver entre os povos de origem europeia, a verdade é que os povos indígenas e os povos africanos nunca precisaram do pensamento racional-cartesiano para pensar ou viver. Sua lógica vai além da razão, ainda que saibam muito bem guiar-se por ela, pois, do contrário, não teriam sobrevivido aos séculos de massacre de suas culturas e de si mesmos. Podemos definir a diferença entre o pensamento europeu e o pensamento não europeu a partir de 2 espaços simbólicos: a linha reta e a encruzilhada. Enquanto o pensamento eurocêntrico busca na linha reta do método racional, a segurança e a garantia das certezas, o pensamento não europeu, indígena, africano, cigano, etc. parte da consciência de que a vida é muito complexa para nos garantir a segurança e o controle tão desejados. Ao contrário, as culturas não europeias entendem que tudo no mundo está sempre em movimento, que o que nos define é a mudança, de modo que nem sempre a resposta correta de hoje será a resposta mais correta ou adequada para o dia de amanhã. Nesse sentido, enquanto o espaço simbólico da estrada reta é o que melhor define o pensamento eurocêntrico, podemos dizer que a encruzilhada é o espaço que corresponde ao modo de pensar latino-americano. Visite nosso blog: https://descolonizaamericalatina.blogspot.com/ Vídeo no canal sobre raça: https://youtube.com/shorts/9OKGUMORy3U?feature=share Links e Bibliografia Textos: "Fogo no mato": a ciência encantada das macumbas, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. "Pedagogia das encruzilhadas", Luiz Rufino. LUIZ ANTÔNIO SIMAS: BATO TAMBOR, LOGO EXISTO, UOL: https://revistatrip.uol.com.br/trip/luiz-antonio-simas-bato-tambor-logo-existo "Por uma epistemologia das encruzilhadas", Luiz Antônio Simas, Bolg Saúde Mental: https://www.psicologiahailtonyagiu.psc.br/materias/e-books/1544-por-uma-epistemologia-das-encruzilhadas Vídeos: "Encruzilhadas", Luiz Antônio Simas: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=rAjlvbU7tFc "Pedagogia das encruzilhadas", Luiz Rufino, Canal pedagogiadasencruzilhadas: https://www.youtube.com/watch?v=gatikyv_2mI Sobre o canal: Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo


domingo, 24 de setembro de 2023

O medo de Exu

    


O medo de Exu


Escravidão: morte física e simbólica

Na América Latina, e especialmente no Brasil, falar de Exu é falar da presença africana entre nós e de toda a riqueza que essa cultura, que o corpo negro nos legou. Por outro lado, é falar também de um dos períodos mais violentos da história ocidental, a escravidão, já que ela representou não só a morte física de milhares de negros, negras e negres que foram sequestrados de África, como representou também, e acima de tudo, a morte simbólica desse povo. 

Chamamos de morte simbólica a opressão por parte do colonizador de todas as formas de vida, de pensar, de sentir e de ser no mundo dos diferentes povos africanos que aqui aportaram, obrigando-os a se submeterem não só ao chicote do senhor como também à sua cultura-branca-europeia-judaico-cristã, que a partir daquele momento seria universalizada como "a Cultura", ou seja, a mais superior, civilizada e legítima, diante da inferioridade e da barbárie das demais culturas não brancas-não europeias-não judaico-cristãs.

A demonização de Exu

Foi nesse contexto de violência e opressão, que Exu foi demonizado pela Igreja Católica, cuja doutrina serviu  de base ideológica para a empresa de colonização. Ao considerar o povo africano inferior, bárbaro, sem Deus, ela legitimou o projeto de expansão civilizatória dos europeus, os quais eram vistos pela igreja (ela própria também europeia) como os "escolhidos" pela graça divina para levar a "civilização", e claro, o deus católico, às demais culturas não brancas e não europeias, uma falsa ideia (e por isso, ideologia), que serviu para justificar o imperialismo português e espanhol, que mais adiante seria substituído pela Inglaterra e pela França.

Não existe diabo na mitologia yorubá

Ocorre é que Exu é uma divindidade que faz parte da mitologia yorubá, na qual não existe nenhuma figura correspondente à figura do diabo. Na verdade, Exu foi demonizado pela Igreja Católica como tentativa de catequizar os escravizados. Poderíamos dizer que a demonização de Exu equivale à demonização de todos os povos africanos, considerados bárbaros, movidos por baixos instintos, inferiores, justificando assim o terror, as mortes e a violência da escravidão, afinal, para o conquistador só o chicote poderia domesticá-los. No entanto, não podemos esquecer que foi a escravidão, o trabalho forçado não assalariado, que permitiu o acúmulo de capital da Europa, foi a mão-de-obra escrava que possibilitou a industrialização dos países hoje considerados hegemônicos.

Quem é Exu?

Na mitologia yorubá, Exu é chamado de Mensageiro. Ele é o grande tradutor e linguista que estabelece a ponte entre o mundo terreno e o mundo espiritual. É ele que vai traduzir para o além as nossas demandas, e que vai traduzir para cada um de nós a vida segundo a espiritualidade, nos ajudando a entender nosso papel nesse mundo, a importância de sermos felizes, de que estamos sempre aprendendo, de permanecermos abertos às mudanças, porque no mundo o que não está em movimento está morto.

Exu vive

Apesar da extrema violência física e simbólica, as quais os povos africanos foram submetidos, ou exatamente por isso, Exu segue vivo entre nós por meio das religiões afro-brasileiras. Seja no Candomblé ou na Umbanda, ou mesmo nas oferendas baixadas nas encruzilhadas, Ele continua gargalhando para a colonização, para os colonizadores e para todos os dominadores do passado, do presente e do futuro.

Exu é a prova de que apesar dos seus incontáveis prejuízos, a colonização foi, é e será um projeto fracassado.

Laroyê!


Assista também ao vídeo "O medo de Exu"

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#descolonização #americalatina #colonialismo #exu #mitologiayoruba #filosofiaafricana #umbanda #candomblé #encruzilhada A colonização subalternizou todos os saberes ancestrais de indígenas e africanos, a fim de impor-lhes a religião e os conhecimentos europeus-branco-judaico-cristãos como universais e, assim, subjugar todas as demais culturas e todos os povos não europeus, não brancos e não cristãos. Entre as estratégias encontradas pela Igreja Católica, que participou ativamente do processo violento de colonização, está a demonização de Exu, uma divindade muito importante e cara ao panteão yorubá. Ao compará-lo com a figura deformada e monstruosa do diabo, tanto fisicamente como moralmente, os colonizadores não só destituíram essa divindade de sua potência, como também destruíram o poder, a autoestima e a identidade dos povos africanos sequestrados para serem escravizados. A verdade é que, como vemos nesse vídeo, na mitologia africana não existe nenhuma figura que corresponda ao demônio católico. Laroyê! Visite nosso blog: https://descolonizaamericalatina.blogspot.com/ Também estamos no instagram : @ritamirandadiogo Vídeo no canal "Encruzilhada: entre medo e curiosidade": https://youtu.be/JzAaYgOgk0Y Links e Bibliografia Textos: "Fogo no mato": a ciência encantada das macumbas, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. "Mitologia dos orixás", Reginaldo Prandi, Cia das Letras, 2020. "Presença negra", IBGE: https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/negros.html "Filosofia africana", Alexandre M. Medeiros, Sabedoria Política: https://www.sabedoriapolitica.com.br/filosofia-politica/filosofia-africana/ "EXU, GRANDE RIO E O PARADOXO DA ENCRUZILHADA", Marina Basso Lacerda, Revista Pradis, FIOCRUZ: https://radis.ensp.fiocruz.br/opiniao/pos-tudo/exu-grande-rio-e-o-paradoxo-da-encruzilhada/ Vídeos: "Exu, orixá", Casa de cultura africana: https://www.youtube.com/watch?v=-OigeknsNXA "Qual a importância dos mitos para as sociedades?", Katiúscia Ribeiro, O futuro é ancestral, Canal GNT: https://www.youtube.com/watch?v=Wref-b4YQJk Sobre o canal: Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo.


23 de abril: Salve Jorge! Salve Ogum!

        Amado por muitos, visto com resistência por alguns, São Jorge é uma figura ambivalente, complexa, que remete às inúmeras acomodações...