O medo de Exu
Escravidão: morte física e simbólica
Na América Latina, e especialmente no Brasil, falar de Exu é falar da presença africana entre nós e de toda a riqueza que essa cultura, que o corpo negro nos legou. Por outro lado, é falar também de um dos períodos mais violentos da história ocidental, a escravidão, já que ela representou não só a morte física de milhares de negros, negras e negres que foram sequestrados de África, como representou também, e acima de tudo, a morte simbólica desse povo.
Chamamos de morte simbólica a opressão por parte do colonizador de todas as formas de vida, de pensar, de sentir e de ser no mundo dos diferentes povos africanos que aqui aportaram, obrigando-os a se submeterem não só ao chicote do senhor como também à sua cultura-branca-europeia-judaico-cristã, que a partir daquele momento seria universalizada como "a Cultura", ou seja, a mais superior, civilizada e legítima, diante da inferioridade e da barbárie das demais culturas não brancas-não europeias-não judaico-cristãs.
A demonização de Exu
Foi nesse contexto de violência e opressão, que Exu foi demonizado pela Igreja Católica, cuja doutrina serviu de base ideológica para a empresa de colonização. Ao considerar o povo africano inferior, bárbaro, sem Deus, ela legitimou o projeto de expansão civilizatória dos europeus, os quais eram vistos pela igreja (ela própria também europeia) como os "escolhidos" pela graça divina para levar a "civilização", e claro, o deus católico, às demais culturas não brancas e não europeias, uma falsa ideia (e por isso, ideologia), que serviu para justificar o imperialismo português e espanhol, que mais adiante seria substituído pela Inglaterra e pela França.
Não existe diabo na mitologia yorubá
Ocorre é que Exu é uma divindidade que faz parte da mitologia yorubá, na qual não existe nenhuma figura correspondente à figura do diabo. Na verdade, Exu foi demonizado pela Igreja Católica como tentativa de catequizar os escravizados. Poderíamos dizer que a demonização de Exu equivale à demonização de todos os povos africanos, considerados bárbaros, movidos por baixos instintos, inferiores, justificando assim o terror, as mortes e a violência da escravidão, afinal, para o conquistador só o chicote poderia domesticá-los. No entanto, não podemos esquecer que foi a escravidão, o trabalho forçado não assalariado, que permitiu o acúmulo de capital da Europa, foi a mão-de-obra escrava que possibilitou a industrialização dos países hoje considerados hegemônicos.
Quem é Exu?
Na mitologia yorubá, Exu é chamado de Mensageiro. Ele é o grande tradutor e linguista que estabelece a ponte entre o mundo terreno e o mundo espiritual. É ele que vai traduzir para o além as nossas demandas, e que vai traduzir para cada um de nós a vida segundo a espiritualidade, nos ajudando a entender nosso papel nesse mundo, a importância de sermos felizes, de que estamos sempre aprendendo, de permanecermos abertos às mudanças, porque no mundo o que não está em movimento está morto.
Exu vive
Apesar da extrema violência física e simbólica, as quais os povos africanos foram submetidos, ou exatamente por isso, Exu segue vivo entre nós por meio das religiões afro-brasileiras. Seja no Candomblé ou na Umbanda, ou mesmo nas oferendas baixadas nas encruzilhadas, Ele continua gargalhando para a colonização, para os colonizadores e para todos os dominadores do passado, do presente e do futuro.
Exu é a prova de que apesar dos seus incontáveis prejuízos, a colonização foi, é e será um projeto fracassado.
Laroyê!
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#descolonização #americalatina #colonialismo #exu #mitologiayoruba #filosofiaafricana #umbanda #candomblé #encruzilhada A colonização subalternizou todos os saberes ancestrais de indígenas e africanos, a fim de impor-lhes a religião e os conhecimentos europeus-branco-judaico-cristãos como universais e, assim, subjugar todas as demais culturas e todos os povos não europeus, não brancos e não cristãos. Entre as estratégias encontradas pela Igreja Católica, que participou ativamente do processo violento de colonização, está a demonização de Exu, uma divindade muito importante e cara ao panteão yorubá. Ao compará-lo com a figura deformada e monstruosa do diabo, tanto fisicamente como moralmente, os colonizadores não só destituíram essa divindade de sua potência, como também destruíram o poder, a autoestima e a identidade dos povos africanos sequestrados para serem escravizados. A verdade é que, como vemos nesse vídeo, na mitologia africana não existe nenhuma figura que corresponda ao demônio católico. Laroyê! Visite nosso blog: https://descolonizaamericalatina.blogspot.com/ Também estamos no instagram : @ritamirandadiogo Vídeo no canal "Encruzilhada: entre medo e curiosidade": https://youtu.be/JzAaYgOgk0Y Links e Bibliografia Textos: "Fogo no mato": a ciência encantada das macumbas, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. "Mitologia dos orixás", Reginaldo Prandi, Cia das Letras, 2020. "Presença negra", IBGE: https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/negros.html "Filosofia africana", Alexandre M. Medeiros, Sabedoria Política: https://www.sabedoriapolitica.com.br/filosofia-politica/filosofia-africana/ "EXU, GRANDE RIO E O PARADOXO DA ENCRUZILHADA", Marina Basso Lacerda, Revista Pradis, FIOCRUZ: https://radis.ensp.fiocruz.br/opiniao/pos-tudo/exu-grande-rio-e-o-paradoxo-da-encruzilhada/ Vídeos: "Exu, orixá", Casa de cultura africana: https://www.youtube.com/watch?v=-OigeknsNXA "Qual a importância dos mitos para as sociedades?", Katiúscia Ribeiro, O futuro é ancestral, Canal GNT: https://www.youtube.com/watch?v=Wref-b4YQJk Sobre o canal: Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo.