domingo, 24 de setembro de 2023

O medo de Exu

    


O medo de Exu


Escravidão: morte física e simbólica

Na América Latina, e especialmente no Brasil, falar de Exu é falar da presença africana entre nós e de toda a riqueza que essa cultura, que o corpo negro nos legou. Por outro lado, é falar também de um dos períodos mais violentos da história ocidental, a escravidão, já que ela representou não só a morte física de milhares de negros, negras e negres que foram sequestrados de África, como representou também, e acima de tudo, a morte simbólica desse povo. 

Chamamos de morte simbólica a opressão por parte do colonizador de todas as formas de vida, de pensar, de sentir e de ser no mundo dos diferentes povos africanos que aqui aportaram, obrigando-os a se submeterem não só ao chicote do senhor como também à sua cultura-branca-europeia-judaico-cristã, que a partir daquele momento seria universalizada como "a Cultura", ou seja, a mais superior, civilizada e legítima, diante da inferioridade e da barbárie das demais culturas não brancas-não europeias-não judaico-cristãs.

A demonização de Exu

Foi nesse contexto de violência e opressão, que Exu foi demonizado pela Igreja Católica, cuja doutrina serviu  de base ideológica para a empresa de colonização. Ao considerar o povo africano inferior, bárbaro, sem Deus, ela legitimou o projeto de expansão civilizatória dos europeus, os quais eram vistos pela igreja (ela própria também europeia) como os "escolhidos" pela graça divina para levar a "civilização", e claro, o deus católico, às demais culturas não brancas e não europeias, uma falsa ideia (e por isso, ideologia), que serviu para justificar o imperialismo português e espanhol, que mais adiante seria substituído pela Inglaterra e pela França.

Não existe diabo na mitologia yorubá

Ocorre é que Exu é uma divindidade que faz parte da mitologia yorubá, na qual não existe nenhuma figura correspondente à figura do diabo. Na verdade, Exu foi demonizado pela Igreja Católica como tentativa de catequizar os escravizados. Poderíamos dizer que a demonização de Exu equivale à demonização de todos os povos africanos, considerados bárbaros, movidos por baixos instintos, inferiores, justificando assim o terror, as mortes e a violência da escravidão, afinal, para o conquistador só o chicote poderia domesticá-los. No entanto, não podemos esquecer que foi a escravidão, o trabalho forçado não assalariado, que permitiu o acúmulo de capital da Europa, foi a mão-de-obra escrava que possibilitou a industrialização dos países hoje considerados hegemônicos.

Quem é Exu?

Na mitologia yorubá, Exu é chamado de Mensageiro. Ele é o grande tradutor e linguista que estabelece a ponte entre o mundo terreno e o mundo espiritual. É ele que vai traduzir para o além as nossas demandas, e que vai traduzir para cada um de nós a vida segundo a espiritualidade, nos ajudando a entender nosso papel nesse mundo, a importância de sermos felizes, de que estamos sempre aprendendo, de permanecermos abertos às mudanças, porque no mundo o que não está em movimento está morto.

Exu vive

Apesar da extrema violência física e simbólica, as quais os povos africanos foram submetidos, ou exatamente por isso, Exu segue vivo entre nós por meio das religiões afro-brasileiras. Seja no Candomblé ou na Umbanda, ou mesmo nas oferendas baixadas nas encruzilhadas, Ele continua gargalhando para a colonização, para os colonizadores e para todos os dominadores do passado, do presente e do futuro.

Exu é a prova de que apesar dos seus incontáveis prejuízos, a colonização foi, é e será um projeto fracassado.

Laroyê!


Assista também ao vídeo "O medo de Exu"

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#descolonização #americalatina #colonialismo #exu #mitologiayoruba #filosofiaafricana #umbanda #candomblé #encruzilhada A colonização subalternizou todos os saberes ancestrais de indígenas e africanos, a fim de impor-lhes a religião e os conhecimentos europeus-branco-judaico-cristãos como universais e, assim, subjugar todas as demais culturas e todos os povos não europeus, não brancos e não cristãos. Entre as estratégias encontradas pela Igreja Católica, que participou ativamente do processo violento de colonização, está a demonização de Exu, uma divindade muito importante e cara ao panteão yorubá. Ao compará-lo com a figura deformada e monstruosa do diabo, tanto fisicamente como moralmente, os colonizadores não só destituíram essa divindade de sua potência, como também destruíram o poder, a autoestima e a identidade dos povos africanos sequestrados para serem escravizados. A verdade é que, como vemos nesse vídeo, na mitologia africana não existe nenhuma figura que corresponda ao demônio católico. Laroyê! Visite nosso blog: https://descolonizaamericalatina.blogspot.com/ Também estamos no instagram : @ritamirandadiogo Vídeo no canal "Encruzilhada: entre medo e curiosidade": https://youtu.be/JzAaYgOgk0Y Links e Bibliografia Textos: "Fogo no mato": a ciência encantada das macumbas, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. "Mitologia dos orixás", Reginaldo Prandi, Cia das Letras, 2020. "Presença negra", IBGE: https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/negros.html "Filosofia africana", Alexandre M. Medeiros, Sabedoria Política: https://www.sabedoriapolitica.com.br/filosofia-politica/filosofia-africana/ "EXU, GRANDE RIO E O PARADOXO DA ENCRUZILHADA", Marina Basso Lacerda, Revista Pradis, FIOCRUZ: https://radis.ensp.fiocruz.br/opiniao/pos-tudo/exu-grande-rio-e-o-paradoxo-da-encruzilhada/ Vídeos: "Exu, orixá", Casa de cultura africana: https://www.youtube.com/watch?v=-OigeknsNXA "Qual a importância dos mitos para as sociedades?", Katiúscia Ribeiro, O futuro é ancestral, Canal GNT: https://www.youtube.com/watch?v=Wref-b4YQJk Sobre o canal: Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo.


domingo, 17 de setembro de 2023

Encruzilhada: entre medo e curiosidade

        Encruzilhada: entre medo e curiosidade

 


 

  1.      Tradição das encruzilhadas

              NÃO se preocupe se você tem medo e ao mesmo tempo sente uma certa atração pelo assunto, pois as encruzilhadas sempre despertaram esse misto de sentimentos no decorrer da nossa história. 
Os Gregos e romanos, por exemplo, ofertavam a Hécate, deusa dos mistérios do fogo e da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. Já o padre José de Anchieta afirma em seus escritos que os tupis ofertavam presentes ao curupira nas encruzilhadas. O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Para os africanos, a divindade que os bantos chamam de Aluvaiá, os iorubás de Exu e os fons conhecem como Legbá, mora nas encruzilhadas. 

  Nas histórias encantadas do mundo da música, dizem que o grande cantor do blues, Robert Johnson, negociou a alma com o Tinhoso numa encruzilhada do Mississipi (aliás, vale a dica sobre essa história num documentário da Netflix, O diabo na encruzilhada); no Brasil caipira, essas histórias se repetem, histórias sobre violeiros que conquistam uma destreza excepcional no violão depois do encontro com o Coisa Ruim nas encruzilhadas.

2.      A encruzilhada como desafio ao pensamento eurocêntrico

         No vídeo Raça, violência e colonialismo (https://youtu.be/LYCuZpIx-iI), nós vimos que as bases do conceito de eurocentrismo são o racionalismo e o pensamento dualista. O primeiro desafio das encruzilhdas diz respeito ao eurocentrismo, cujo racionalismo tem como lema, criado pelo filósofo francês René Descartes,"Penso, logo, existo", enquanto que nós podemos dizer que para quem vive a partir da perspectiva da encruza o lema mais adequado seria "Encanto, logo existo". 

Sim, as encruzilhadas são um espaço de encantamento, de mistério, de comunicação 
com o sobrenatural, e as passoas que acrfeditam nos seres encantados, apesar de viverem 
o lado racional da vida, também conhecem a importância de se guiarem por suas intuições, pelos seus sentimentos, pelo coração.
  Quanto ao dualismo, esse modo de pensar o mundo, as pessoas e as situações a partir de oposições, as encruzilhadas oferecem o desafio ao eurocentrismo porque elas são 
o espaço das possibilidades, das incertezas, dos riscos. Se o eurocentrismo persegue as certezas e os conceitos absolutos, as encruzas operam através da dúvida, relativizando as oposições, já que dependendo da situação, sabemos que o "certo" pode ser o "errado" e o "errado" o "certo". As encruzas são assim o lugar do movimento, do dinamismo, que nos tira constantemente da zona de conforto e nos desafia a crescer, nos impulsiona sempre a melhorar a nós mesmos e ao mundo. 

Concluindo, enquanto o dualismo eurocêntrico só considera o "isto ou aquilo": 2 gêneros opostos (homem x mulher) e 2 raças opostas (branco x não branco), estabelecendo uma hierarquia, onde o primeiro par é sempre superior ao segundo; nas encruzilhdas, todos as identidades de gênero, todas as orientações sexuais e todas as raças são igualmente bem-vindas, e os saberes que produzem são igualmente credibilizados. TODOS tem seu lugar no mundo e são LIVRES para SER.

     

 


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#americalatina #descolonização #colonialismo #raça #racism #decolonialidad #decolonization #ideiaderaça #encruzilhada #cruzo #diversidadeeinclusao #genero #pensamentos
 

Desde os gregos e romanos, as encruzilhadas sempre suscitaram um misto de sentimentos que vai do medo à curiosidade. Nesse vídeo, a gente passa por algumas das histórias que situam a encruzilhada como um espaço de encantamento, mistério e de comunicação com o sobrenatural. Por outro lado, frente às oposições simplistas do dualismo eurocêntrico, o cruzo abre novas perspectivas, novas possibilidades, onde cabem todas cores, identidades de gênero e orientações sexuais, ou seja, todas as formas de ser, saber e poder. Nesse sentido, pensar a partir das encruzilhadas é desafiar o eurocentrismo e todas as formas de discriminação que essa forma de pensar impõe à nossa sociedade. 

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Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo. 



sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Colonialismo interno, colonialismo internacional e ideia de raça

              


Colonialismo interno, colonialismo internacional e ideia de raça


O conceito de colonialismo interno 

O conceito de "colonialismo interno" foi criado pelo sociólogo mexicano Pablo González Casanova. Em linhas gerais, esse conceito remete ao fato de que a elite latino-americana que passou a assumir o poder depois da independência das ex-colônias, opta por copiar as mesmas relações de poder que já existiam na época da colonização, em cuja base está a ideia de raça.

Assim, todas as instituições desses novos países passarão a funcionar a partir da ideia de que existem raças superiores e raças inferiores, a primeira representada pelos valores do homem branco-europeu-cristão e a segunda pelo homem não-branco, não-europeu e não cristão. 

Indígenas e Quilombolas frente ao desenvolvimentismo 

O fato é que esse segundo grupo, considerado bárbaro, deverá se submeter aos  representantes dos valores europeus, devendo-lhes obediência e tendo de se submeter às suas decisões. Na verdade, esse grupo não branco e não europeu, indígenas e quilombolas, passarão a representar um entrave ao desenvolvimento dessas novas nações, sendo em sua maioria exterminados de diferentes formas. 

Extermínio de indígenas e quilombolas 

Entre as formas de extermínio está expulsar-lhes de suas terras, o que significa para indígenas e quilombolas, a perda de sua própria identidade, de sua cultura, pois perder seu território é perder o convívio com sua ancestralidade, encarnada nos entes encantados das florestas, dos rios, das montanhas, enfim, em sua relação com a Natureza, é perder o próprio sentido da vida.         

O que é a Natureza para os indígenas e quilombolas? 

 Ao contrário do homem branco-europeu, para os indígenas e quilombolas, a Natureza não é vista como um objeto a ser explorado sem limites para o próprio benefício, mas como um sujeito, que possui por assim dizer, uma personalidade, características, necessidades, que devem ser respeitadas, caso se queira conservá-la e perpetuá-la para as próximas gerações.  

Colonialismo interno, internacional e multinacional 

Mais adiante, a esse colonialismo interno, ou seja, a essa reprodução do modelo europeu na América Latina, será acrescentado o colonialismo internacional e multinacional, quando as instituições políticas, econômicas e jurídicas passarão a servir aos interesses de uma rede corporativa formada por grandes bancos, fundos de investimento, políticos, empresas nacionais, internacionais e multinacionais.

Essa rede corporativa, cujos membros são em geral grandes proprietários de terras, são hoje os grandes responsáveis pela expulsão de indígenas e quilombolas, pela mortes de inúmeros líderes, pelo extermínio dessas populações.

Assista também ao vídeo abaixo. SE INSCREVA no canal e se una à nós na revolução do pensamento descolonial.


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#americalatina #descolonização #colonialismo #raça #racismo #racism #decolonialidad #decolonization #colonialismointerno #invasaoterraindigena #terraindigena #terraquilombola #quilombo #indigena #indigenous #ideiaderaça Relatório produzido pelo núcleo de pesquisas do observatório De Olho nos Ruralistas ,“Os Invasores: quem são os empresários brasileiros e estrangeiros com mais sobreposições em terras indígenas”: https://deolhonosruralistas.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Os-Invasores-2023.pdf Vídeo no canal sobre território indígena: Para além do eurocentrismo: América Latina entre outras razões https://youtu.be/FLTkP5CAL9s América Latina: Estados independentes sociedades coloniais: https://youtu.be/MXbvlDnooCQ Partindo-se das relações coloniais estabelecidas a partir da invasão da América por parte dos europeus no século XIV, baseadas na ideia de raça, na exploração da mão de obra escrava e dos recursos naturais das antigas colônias, demonstramos que apesar da posterior independência destas últimas, a colonialidade do poder e do imaginário eurocêntrico continuam a estruturar as instituições, sejam elas de ordem política, econômica, social ou cultural. A invasão das terras indígenas e quilombolas que acontece nos dias atuais é uma genuína demonstração desse fato. Links e Bibliografia Textos: "Não ao Marco Temporal" #marcotemporalnão: https://descolonizaamericalatina.blogspot.com/ "Terras indígenas e quilombos conservam e recuperam áreas devastadas da Amazônia", Sidney Rodrigues Coutinho, Conexão UFRJ: https://conexao.ufrj.br/2022/03/terras-indigenas-e-quilombos-conservam-e-recuperam-areas-devastadas-da-amazonia/ "Colonialismo interno (uma redefinição)", Pablo González Casanova: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/formacion-virtual/20100715084802/cap19.pdf A (IN)DEPENDÊNCIA DO BRASIL A PARTIR DA VISÃO EUROCÊNTRICA: O LEGADO DO COLONIALISMO INTERNO, Mariane Yuri Shiohara Lubke e outros: https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/videre/article/view/13002 "Ameaças a indígenas e quilombolas são legado de Bolsonaro no Vale do Ribeira", Leonardo Fuhrmann e Manoel Marques (imagens), em Eldorado, Iguape e Sete Barras (SP): https://deolhonosruralistas.com.br/2022/10/29/ameacas-e-invasoes-a-territorios-indigenas-e-quilombolas-sao-legado-de-bolsonaro-no-ribeira/ "Povos indígenas e quilombolas: 3 motivos pelos quais a demarcação de terras é importante", Raízes: https://raizesds.com.br/pt/povos-indigenas-quilombolas/ Vídeos: Kaiowás sitiados por "agentes de segurança" em Pyelito Kue, Vídeo nas Aldeias: https://www.youtube.com/watch?v=L15HOmt5jho&t=113s Vídeo mostra momento do tiroteio em reserva indígena ianomâmi, UOL: https://www.youtube.com/watch?v=hPWQHav0Sj0
                    

23 de abril: Salve Jorge! Salve Ogum!

        Amado por muitos, visto com resistência por alguns, São Jorge é uma figura ambivalente, complexa, que remete às inúmeras acomodações...