Amado por muitos, visto com resistência por alguns, São Jorge é uma figura ambivalente, complexa, que remete às inúmeras acomodações que toda cultura com passado colonial foi obrigada a criar, sem que isso absolutamente represente ausência de conflito ou qualquer tipo de processo harmonioso. Pelo contrário, se por um lado, todas as assimilações culturais foram impostas pelo colonizador, por outro, essas mesmas assimilações nunca deixaram de acontecer sem resistências, sem lutas, e em geral, foram negociadas nas brechas, nas rachaduras deixadas por um sistema profundamente violento e excludente.
São Jorge e a herança racista da colonização
Na versão de santo católico, São Jorge é profundamente amado, porém, quando a fama de santo macumbeiro se espalha, ele passa a ser olhado por muitos com desconfiança. Afinal, quem é ele? Jorge ou Ogum? Sempre que se acendem velas, se elevam orações, sempre que ouvimos os clarins da alvorada no dia 23 de abril, qual deles está sendo adorado, o santo católico ou o santo macumbeiro?
E aí, a palavra "macumba" merece uma reflexão: também ela fruto da monocultura colonizadora, essa palavra apaga toda a diversidade das religiões afro-brasileiras (candomblé, umbanda, catimbó, etc.), colocando-as todas num mesmo caldeirão, o caldeirão do tinhoso. Porque sim, o colonizador tratou de demonizar todas as formas de espiritualidade não europeias e não brancas, relacionando-as com expressões religiosas de raças inferiores e primitivas, as quais deveriam ser submetidas à superioridade de seu projeto civilizador.
Não esqueçamos, no entanto, que ditas "raças inferiores" possuem cor, e se inicialmente elas foram da cor da pele indígena, mais adiante as vantagens econômicas do tráfico de escravos, vai dar lugar ao predomínio da cor negra nas lavouras e nas casas grandes dos senhores de engenho. Enfim, "macumba" é coisa de gente NÃO branca.
Embranquecimento: uma opção política
Pois bem, infelizmente os processos de independência das ex-colônias latino-americanas não acompanharam um processo paralelo de erradicação da estrutura colonialista. Pelo contrário, essa estrutura se mantém até hoje. As elites que lideraram esses movimentos de independência eram em sua maioria descendentes de europeus - lembremos que a independência do Brasil foi liderada pelo próprio colonizador -, e se identificavam com a cultura de suas respectivas metrópoles. Isso resultou num contexto a princípio paradoxal: o estabelecimento de países independentes, cujas sociedades permaneceram com bases coloniais. Talvez isso explique todo o processo de eugenia ao qual elas foram submetidas durante o século XIX.
A opção pela Europa como modelo civilizatório a ser seguido e copiado pelas ex-colônias levou as elites a incentivarem um processo de embranquecimento que ia do apoio ao discurso eugênico sobre raça às políticas de imigração europeia, com o objetivo de tornar a população cada vez mais branca. Evidentemente, nesse contexto, todas as manifestações culturais de povos de origem NÃO branca foram reprimidas e até criminalizadas, como foi o caso das rodas de samba, da capoeira e das religiões afro-brasileiras, todas elas pejorativamente chamadas de "macumba".
Sincretismo: São Jorge não é Ogum. Ogum não é São Jorge.
No sincretismo, assim como é comum a todo processo de tradução, o texto traduzido nunca é igual ao texto de origem, especialmente quando se tratam de linguagens, cujos sistemas são tão diferentes, e eu diria até opostos. Se remetemos, por exemplo, à forma pela qual os pensamentos das culturas europeias e africanas operam, vamos perceber que, enquanto a primeira pensa a partir de oposições, a segunda entende que entre dois termos opostos existem muitas nuances que devem ser consideradas e que as oposições em geral são falsas, pois a depender dos contextos, do momento que cada pessoa vive ou do caminho que cada um veio realizar nesse planeta, o que para um é "bom", para outro pode ser "ruim". Assim, se para a cultura europeia, toda diferença deve ser erradicada, pois o mundo europeu sempre será o modelo do bom, do belo e do verdadeiro, para muitos povos africanos, como os bantos, por exemplo, a incorporação de deuses e crenças do outro é vista como acréscimo de força vital.
Talvez tenha sido a característica acima citada que permitiu que os povos africanos escravizados incorporassem o santo católico ao seu panteão, traduzindo São Jorge como Ogum, ao mesmo tempo que negociavam a sobrevivência dos cultos aos seus ancestrais, ou seja, sua própria sobrevivência nessas novas terras.
Por outro lado, como dissemos, numa boa tradução, texto de origem e texto traduzido nunca serão exatamente iguais, ou seja, São Jorge NÃO é Ogum e Ogum NÃO é São Jorge. Na verdade, essa tradução terá como resultado um terceiro elemento, o qual transcenderá ambos os textos sem, contudo, anulá-los. Nesse sentido, o santo católico nunca deixará de ser quem é, "um guerreiro valente, que cuida da gente que sofre demais...", e Ogum, por sua vez, se manterá vivo, e ambas as energias se complementarão nos vãos deixados pela diferença. (BENJAMIN, 2008).
Referências
BENJAMIN, Walter. A tarefa-renúncia do tradutor. In: BRANCO, Lucia Castello (Org.). A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Tradução de Susana Kampff Lages. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008, p. 66-81.
SIMAS, Luiz Antonio & RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.
LUBKE, Mariane Yuri S. et alii. "A independência do Brasil a partir da visão eurocêntrica: o legado do colonialismo interno". In: Revista Videre, v. 13, n. 26, jan-abr. 2021.
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