domingo, 7 de abril de 2024

A Colonialidade de A a Z

 

         Comecemos por diferenciar colonialismo de colonialidade. Em linhas gerais, podemos dizer que a colonialidade e a modernidade nascem durante o processo de colonização da América (Latina), já que esse evento histórico marca o nascimento de um padrão específico de poder, o padrão mundial de poder capitalista (Quijano, 2014). Esse, por sua vez, se funda "na imposição de uma classificação racial/étnica da população", a partir da qual o mundo passa a ser dividido entre grupos supostamente superiores a outros que serão considerados inferiores. Em resumo, podemos dizer que as marcas materiais dessa diferença serão a cor da pele e os traços fenótipos que a acompanham, sendo superiores o homem euro-branco-judaico-cristão em oposição aos demais grupos NÃO-euro-branco-judaico-cristãos. 

          Por outro lado, essa divisão foi essencial para estabelecer o lugar das populações na divisão social do trabalho, de modo que serão os Não-brancos os destinados a ocupar posições subalternas, os mesmos que permitirão o acúmulo de capital necessário- lembremos da escravidão- para que o mundo europeu pudesse engendrar e consolidar o sistema capitalista sob o qual vivemos até hoje. Como podemos perceber, o que garante o funcionamento das engrenagens do sistema capitalista é a existência e a manutenção do racismo, e com ele, a diferença entre ricos e pobres, países centrais e periféricos, grupos hegemônicos e subalternizados. Heis aqui o conceito de "colonialidade", um fenômeno bem mais antigo do que o colonialismo, mas que não existiria sem que este tivesse assentado as bases para a sua existência. 


Rodas de samba e colonialidade do poder

          colonialidade do poder é um padrão de poder euro-branco-colonial-capitalista, que desde a conquista das Américas passou a estabelecer relações de poder verticais, baseadas em formas modernas de exploração e dominação, cuja violência vai encontrar na suposta existência de raças biologicamente superiores e inferiores sua principal justificativa. 

Ao contrário, povos não euro-brancos-cristãos encontram no sentido de coletividade sua maior força e poder. Na roda de samba, por exemplo, o poder é praticado de forma horizontal (SILVA, 2022, p. 08), onde corpos negros, territórios de saberes diaspóricos, trocam seus conhecimentos, suas vivências, alegrias e sofrimentos através do samba. Nessa roda não existem dominadores e dominados, mas pessoas que constroem uma comunidade de resistência, quilombos onde exercem sua humanidade de forma plena. 



                             Samba: colonialidade do saber   

      A colonialidade do saber se refere ao apagamento das produções de conhecimentos de povos não europeus e não brancos. Junto com a colonialidade do poder, a colonialidade do saber estabelece uma forma de produção de conhecimento e um tipo de saber que passa a ser visto como o único e universal, ou seja, os conhecimentos produzidos a partir de matrizes euro-norte-americanas-brancas.

 A partir da colonialidade do saber, saberes negros, indígenas, ciganos, ribeirinhos são subalternizados, deslegitimados como saberes menores, inferiores, e são então relegados ao espaço do mito, do folclore, da imaginação, do não-real. É o que acontece com o samba, por exemplo, um ritmo que marca a forte presença africana na cultura brasileira. 

Com batuques provenientes do Congo e de Angola, o samba e seus diferentes ritmos é uma forma de construção diaspórica de conhecimentos, na qual fragmentos de saberes despedaçados pela escravidão se cruzam na reinvenção de novos conhecimentos. Assim, se por um lado o samba canta a dor de mortes e perdas, por outro, ele também canta o poder regenerador da ancestralidade e todos os saberes que a acompanham: o poder curativo das ervas, a gastronomia africana, os ritos e festas trazidos de África e reinventados nas Américas.


Poder SER: a colonialidade do ser

       Ao lado da colonialidade do poder e do saber, a colonialidade do ser estabelece quem deve fazer parte do seleto grupo chamado humanidade: em resumo, todos aqueles que participam do padrão de relações de poder moderno-colonial como dominadores, ou seja, os herdeiros dos privilégios de gênero, raça e classe euro-branco-judaico-cristãos. 

Esse padrão de poder é, portanto, essencialmente excludente, em especial para os que vivem em países de passado colonial e escravocrata, cuja população não branca, não herdeira dos privilégios da casa grande, negros, indígenas, ribeirinhos, ciganos e outros, terão seus corpos racializados e subalternizados. Corpos que serão relegados ao espaço-tempo de um passado bárbaro, primitivo e inferior, ao espaço-tempo do NÃO-SER, do NÃO-HUMANO. 

Assim, esses corpos subalternizados terão de reinventar sua própria humanidade, o que acontece muitas vezes através de algumas manifestações culturais. É o caso do carnaval, por exemplo, já que ele permite a inversão das relações de poder moderno-coloniais, onde o dominador se transforma em objeto de crítica e sátira, enquanto o dominado assume a posição de sujeito dessa mesma crítica. No carnaval, os corpos negros se exibem, os passistas exibem sua ginga ao som dos batuques, saberes que revelam sua ancestralidade. Nesse momento, eles SÃO, porque se reconhecem enquanto COMUNIDADE, enquanto NAÇÃO, uma IDENTIDADE no tempo com espaço nesse mundo.


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Vídeo no canal sobre raça: https://youtube.com/shorts/9OKGUMORy3U?feature=share Links e Bibliografia
Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, Aníbal Quijano: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf

O que é patriarcado? Regiane Folter, Politize!: https://www.politize.com.br/patriarcado/

Samba e decolonialidade, Ariana Mara da Silva: https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/resources/anais/16/anpuh-sc-eeh2022/1662405589_ARQUIVO_9d764d9b2988aec0e4d2f5516fb1dd37.pdf

Vídeos
Aníbal Quijano en el III Congreso Latinoamericano y Caribeño de Ciencias Sociales, FLACSO, Equador: https://www.youtube.com/watch?v=OxL5KwZGvdY




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