domingo, 17 de setembro de 2023

Encruzilhada: entre medo e curiosidade

        Encruzilhada: entre medo e curiosidade

 


 

  1.      Tradição das encruzilhadas

              NÃO se preocupe se você tem medo e ao mesmo tempo sente uma certa atração pelo assunto, pois as encruzilhadas sempre despertaram esse misto de sentimentos no decorrer da nossa história. 
Os Gregos e romanos, por exemplo, ofertavam a Hécate, deusa dos mistérios do fogo e da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. Já o padre José de Anchieta afirma em seus escritos que os tupis ofertavam presentes ao curupira nas encruzilhadas. O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Para os africanos, a divindade que os bantos chamam de Aluvaiá, os iorubás de Exu e os fons conhecem como Legbá, mora nas encruzilhadas. 

  Nas histórias encantadas do mundo da música, dizem que o grande cantor do blues, Robert Johnson, negociou a alma com o Tinhoso numa encruzilhada do Mississipi (aliás, vale a dica sobre essa história num documentário da Netflix, O diabo na encruzilhada); no Brasil caipira, essas histórias se repetem, histórias sobre violeiros que conquistam uma destreza excepcional no violão depois do encontro com o Coisa Ruim nas encruzilhadas.

2.      A encruzilhada como desafio ao pensamento eurocêntrico

         No vídeo Raça, violência e colonialismo (https://youtu.be/LYCuZpIx-iI), nós vimos que as bases do conceito de eurocentrismo são o racionalismo e o pensamento dualista. O primeiro desafio das encruzilhdas diz respeito ao eurocentrismo, cujo racionalismo tem como lema, criado pelo filósofo francês René Descartes,"Penso, logo, existo", enquanto que nós podemos dizer que para quem vive a partir da perspectiva da encruza o lema mais adequado seria "Encanto, logo existo". 

Sim, as encruzilhadas são um espaço de encantamento, de mistério, de comunicação 
com o sobrenatural, e as passoas que acrfeditam nos seres encantados, apesar de viverem 
o lado racional da vida, também conhecem a importância de se guiarem por suas intuições, pelos seus sentimentos, pelo coração.
  Quanto ao dualismo, esse modo de pensar o mundo, as pessoas e as situações a partir de oposições, as encruzilhadas oferecem o desafio ao eurocentrismo porque elas são 
o espaço das possibilidades, das incertezas, dos riscos. Se o eurocentrismo persegue as certezas e os conceitos absolutos, as encruzas operam através da dúvida, relativizando as oposições, já que dependendo da situação, sabemos que o "certo" pode ser o "errado" e o "errado" o "certo". As encruzas são assim o lugar do movimento, do dinamismo, que nos tira constantemente da zona de conforto e nos desafia a crescer, nos impulsiona sempre a melhorar a nós mesmos e ao mundo. 

Concluindo, enquanto o dualismo eurocêntrico só considera o "isto ou aquilo": 2 gêneros opostos (homem x mulher) e 2 raças opostas (branco x não branco), estabelecendo uma hierarquia, onde o primeiro par é sempre superior ao segundo; nas encruzilhdas, todos as identidades de gênero, todas as orientações sexuais e todas as raças são igualmente bem-vindas, e os saberes que produzem são igualmente credibilizados. TODOS tem seu lugar no mundo e são LIVRES para SER.

     

 


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Desde os gregos e romanos, as encruzilhadas sempre suscitaram um misto de sentimentos que vai do medo à curiosidade. Nesse vídeo, a gente passa por algumas das histórias que situam a encruzilhada como um espaço de encantamento, mistério e de comunicação com o sobrenatural. Por outro lado, frente às oposições simplistas do dualismo eurocêntrico, o cruzo abre novas perspectivas, novas possibilidades, onde cabem todas cores, identidades de gênero e orientações sexuais, ou seja, todas as formas de ser, saber e poder. Nesse sentido, pensar a partir das encruzilhadas é desafiar o eurocentrismo e todas as formas de discriminação que essa forma de pensar impõe à nossa sociedade. 

Sobre o canal: 

Este canal pretende olhar para a América Latina a partir da perspectiva da descolonização. Por isso, ele tem a ambição de ser um espaço inclusivo, onde caibam todas as cores e gêneros, todas as formas do conhecer, sejam elas teóricas e/ou práticas, canônicas ou não, onde elas se cruzem, se complementem e abram caminho para novas perguntas e outros atravessamentos. Assim, o tempo-espaço desse canal não poderia deixar de ser a encruzilhada, espaço de possibilidades, de potencialidades, de ser sendo para a inventividade, para a criação de novas formas de ser, de saber e de poder. A ambição desse canal é mostrar a riqueza e a sofisticação das práticas culturais da banda de cá do Sul global, que soube driblar a hegemonia do Norte, cruzá-la e criar formas originais de estar e de ser no mundo. 



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